O selénio como possível antagonista do mercúrio e o problema do mercúrio no peixe

O selénio como possível antagonista do mercúrio e o problema do mercúrio no peixeO selénio favorece diversas proteínas seleniodependentes, que são fundamentais para renovação energética, metabolismo, defesas imunitárias, fertilidade e protecção antioxidante. Além disso, o selénio tem especial afinidade para o mercúrio, pelo que consegue ligar-se a este metal pesado e neutralizar o efeito nocivo no cérebro, no sistema nervoso e noutros tecidos. Todavia, uma vez ligado ao mercúrio, o selénio deixa de poder ser utilizado pelas selenoproteínas. Todos estamos expostos a uma determinada quantidade de mercúrio, o que pode redundar em insuficiência limiar de selénio. O problema é que há outros factores que intervém, como colheitas pobres em selénio, devido à falta de selénio nos solos agrícolas de cultivo da Europa. O que importa perceber é que a toxicidade por mercúrio é insidiosa, e determinados peixes, como peixes predadores, e baleias no topo da cadeia alimentar contêm grandes concentrações de mercúrio. Contudo, doses terapêuticas de selénio podem prevenir o efeito tóxico do metal pesado, segundo um novo artigo de revisão publicado em Scientific Research.

A acumulação de mercúrio na cadeia alimentar

O mercúrio (Hg) integra vários compostos orgânicos e inorgânicos que são tóxicos para o ser humano. Combustíveis fósseis, incineradoras, extracção de ouro e outras actividades por intervenção do homem aumentaram as concentrações de mercúrio na atmosfera em 300 por cento desde os anos 1800. Quando a forma do elemento selénio é oxidado, formam-se formas inorgânicas e hidrossolúveis que se espalham para o ambiente circundante através da chuva ou do solo. Posteriormente, as bactérias conseguem metilar estes compostos de selénio, formando, assim, metilmercúrio, uma forma orgânica, especialmente nociva, altamente tóxica e que se acumula pela cadeia alimentar.
A concentração de mercúrio nos alimentos, como o peixe, pode, por isso, torna-se um problema de saúde para muitas pessoas e animais, sendo que há ainda outras fontes deste metal pesado perigoso. O mercúrio consegue atravessar, facilmente, a barreira hematoencefálica e acumular-se no cérebro. O mercúrio também pode acumular-se na glândula tiróide, no fígado, nos rins e noutros tecidos com concentrações relativamente elevadas de selénio – muito simplesmente por causa da relação especial entre o selénio e o mercúrio. Falaremos disto mais à frente.
O feto está especialmente vulnerável por causa da rápida divisão celular e porque o selénio é de primeira importância para o desenvolvimento do cérebro e para o sistema nervoso.
O mercúrio é igualmente fonte de radicais livres. Os radicais livres são moléculas agressivas que atacam as células e provocam stress oxidativo.

Fontes de mercúrio

  • Combustíveis fósseis (especialmente o carvão)
  • Peixes predadores, como atum, alabote, tubarão e certos tipos de baleia
  • Incineradoras, crematórios e cemitérios
  • Extracção de ouro
  • Obturações de amálgama e águas residuais de clínicas dentárias
  • Lâmpadas, termómetros e outros tipos de instrumentos de medida
  • Pesticidas e herbicidas
  • Determinadas vacinas (pelo seu teor de timerosal)

A intoxicação por mercúrio muitas vezes é insidiosa

A toxicidade aguda por mercúrio provoca dores epigástricas acompanhadas de vómitos, diarreia, choque circulatório e função renal comprometida. Há inclusive evidência que sugere que a toxicidade crónica por mercúrio é uma ameaça para a saúde muito mais grave, provocada por exposição prolongada ao mercúrio, devido a obturações de amálgama, consumo de peixe, entre outros. Além disso, há o risco de um eventual diagnóstico não estar relacionado com a verdadeira causa. A exposição ao mercúrio, especialmente quando se tem défice de selénio, pode dar origem a vários sintomas (a seguir apresentados). Todavia, raramente se avalia a toxicidade crónica por mercúrio.

Sinais característicos de intoxicação por mercúrio (depois de excluídos outros factores)

  • Infecções e inflamações frequentes
  • Perturbações da tiróide
  • Fadiga anormal
  • Depressão, ansiedade e psicoses
  • Cefaleias
  • Problemas de concentração
  • Má coordenação
  • Sensação de formigueiro nos lábios e membros
  • Disartria
  • Perda de visão e surdez
  • Dores articulares e musculares
  • Sabor metálico na boca
  • Doença periodontal
  • Baixo QI (especialmente se a mãe tiver tido intoxicação por mercúrio durante a gravidez)
  • Morte – em caso de exposição a doses letais

A investigação também já demonstrou que o mercúrio pode ter influência no aparecimento de outras doenças, como esclerose, fibromialgia, doença cardiovascular, demência, doença de Alzheimer, autismo, doenças pélvicas, cancro da mama e reumatismo.

Selénio

O selénio é um oligoelemento essencial que apoia 25 proteínas que contêm selénio (selenoproteínas) e que são importantes para a renovação energética, defesas imunitárias, metabolismo e fertilidade. O selénio apoia ainda certos antioxidantes muito potentes (GPX), que protegem as células contra o stress oxidativo causado pelos radicais livres. Vários estudos mostram que a insuficiência de selénio pode aumentar o risco de infecções, perturbações da tiróide, doença cardiovascular, problemas de fertilidade e cancro
Os solos agrícolas na Europa, geralmente, são muito pobres em selénio. Cerca de 20 por cento dos dinamarqueses obtêm menos selénio do que os 55 microgramas diários recomendados. Este aporte de referência, à partida, provavelmente é muito baixo, especialmente para pessoas com demasiado mercúrio no sistema.

Interacções entre o mercúrio e o selénio

A lesão tóxica provocada pelo mercúrio é, principalmente, consequência de uma perturbação do metabolismo do selénio. Acontece que a semelhança química entre o mercúrio, o selénio e o enxofre pode provocar uma lesão grave ao nível das células, porque determinadas moléculas que contêm enxofre (tióis) têm a capacidade de transportar o mercúrio para as células. Aqui, o mercúrio pode perturbar ou pôr termo a muitas das funções essenciais das selenoproteínas.
As reservas de selénio do organismo são um alvo bioquímico para o mercúrio, e estima-se que a afinidade do mercúrio para o selénio seja um milhão de vezes superior à afinidade do mercúrio para o enxofre. É por isso que os cientistas pensam que os sintomas de intoxicação por mercúrio surgem em consequência de os tecidos e células expostos terem falta de selénio, selénio esse que é necessário para apoiar processos enzimáticos importantes e como antioxidante protector.
Por outro lado, o selénio forma uma ligação química com o mercúrio, ao formar selenito de mercúrio que neutraliza o efeito nocivo do mercúrio. O selénio tem forte afinidade para o mercúrio, mas uma vez ligado ao mercúrio, deixa de estar disponível para as muitas proteínas seleniodependentes que são importantes para funções enzimáticas, processos metabólicos e protecção contra o stress oxidativo. Por outras palavras, quando se está exposto a quantidades toxicas de mercúrio, a necessidade de selénio aumenta.

O problema do mercúrio no marisco, no peixe e na baleia

O peixe e o marisco contêm proteínas, selénio, zinco, ácidos gordos ómega 3 e outros nutrientes importantes. Como já foi referido, o mercúrio tem tendência para se acumular pela cadeia alimentar. É, por isso, mais prudente comer peoxes como solha, linguado, solha-das-pedras, bacalhau, peixe-cabra, arenque, anchovas e salmão, que estão no fundo da cadeia alimentar e com uma relação selénio-mercúrio mais favorável. Também o atum pequeno contém muito menos mercúrio do que o atum grande. A maioria das fontes alimentares marinhas contém maior quantidade de selénio que de mercúrio – exceptuando a baleia, o tarpão, o espadim e certos tubarões. Um estudo de baleias-piloto, que são muito consumidas nas ilhas Faroé, mostrou que têm impacto negativo por causa das elevadas concentrações de mercúrio. É tudo uma questão de equilíbrio entre o selénio e o mercúrio no peixe e no marisco. Contudo, segundo o novo artigo de revisão, isto tem mais que se lhe diga. Mesmo uma relação de 1:1 entre o selénio e o mercúrio pode provocar toxicidade, se o selénio e o mercúrio, no peixe ou em quem o consome, não conseguirem ligar-se e evitar lesão.
Presume-se que a maioria do peixe é própria para consumo, porque o teor de selénio é suficientemente elevado. Contudo, há que ter consciência de que o peixe no topo da cadeia alimentar também acumula outras toxinas ambientais, sendo que muito do peixe e mexilhão do Mar Báltico ultrapassa o limiar da UE.
Segundo as recomendações da Danish Veterinary and Food Administration (organismo dinamarquês de veterinária e alimentar), crianças com menos de 14 anos e mulheres a tentar engravidar ou a amamentar não devem consumir peixes predadores grandes, como o atum. Devem evitar igualmente ingerir atum branco e atum albacora em conserva. As crianças com menos de três anos devem evitar completamente o atum, uma vez que o cérebro ainda está em desenvolvimento. As novas orientações alimentares são baseadas em estudos que mostram que uma em cada quatro crianças corre o risco de lesão cerebral, devido a acumulação de mercúrio.

  • Segundo um relatório anterior da UE, a baixa de QI provocada pela toxicidade por mercúrio custa aos contribuintes dinamarqueses cerca de 750 milhões de coroas dinamarquesas por ano.
  • Esta é apenas a ponta do icebergue, pois a toxicidade por mercúrio pode dar origem a muitos outros sintomas e doenças
  • Devemos fazer o possível para limitar o efeito nocivo do mercúrio e procurar obter selénio suficiente para protecção
  • Segundo o Professor Nicholas V. C. Ralston e a Dra. Laura J. Raymond, as reservas de selénio do organismo determinam a toxicidade por mercúrio. Este efeito tem sido subestimado em muitos estudos sobre o mercúrio

Desintoxicação de mercúrio e compensação por aporte de selénio reduzido

Os suplementos de selénio podem intensificar a desintoxicação de mercúrio e compensar a falta de selénio na alimentação. O mais indicado é tomar levedura de selénio com diversas variedades de selénio, porque simula a variedade de selénio natural presente numa alimentação com diversas fontes de selénio. Considera-se seguro tomar 300 microgramas de selénio por dia. A toma de doses mais elevadas, por exemplo relacionadas com desintoxicação de mercúrio, só deve ter lugar mediante consulta do médico.

 Compostos que contêm selénio importantes
 Composto  Função
 Deiodinase tipo 1-3  Hormona tiroideia
 GPX 1-6 (Glutationa Peroxidase)  Antioxidantes potentes
 Selenoproteína S  Regulação das citocinas e da reacção inflamatória celular
 Selenoproteína P  Antioxidante e transporte do selénio no organismo
 Selenoproteína R e N1  Antioxidantes com várias funções
 Selenoproteína M  Grandes concentrações no cérebro. Não se conhecem devidamente as funções
 Selenoproteína T  Favorece a estrutura celular e proteínas
 TXNRD 1-3  Antioxidantes, mitocôndrias, renovação energética, metabolismo
 MSRB1  Reparação de danos oxidativos
Mesmo a mínima insuficiência de selénio pode originar funcionamento deficiente das selenoproteínas

 Referências bibliográficas:

Michael Gochfeld, Joanna Burger. Mercury interactions with selenium and sulfur and the relevance of SE: HG molar ratio to fish consumption advice. Environ Sci Pollut res Int. 2021

Rosewell Timmerman, Stanley Omaye. Selenium´s Utility in Mercury Toxicity: A Mini-Review. Scientific Research. 2021

Nicholas V.C. Ralston, Laura J. Raymond. Mercury´s neurotoxicity is characterized by its disruption of selenium biochemistry. 2018

Aparna P. Shreenath; Jennifer Dooley. Selenium, Deficiency. NCBI October 27, 2018

Hilten T Mistry et al. Selenium in reproductive health. Journal of Obstetrics and Gynaecologi. 2011

Malene Outzen et al. Selenium status and risk of prostate cancer in a Danish population. British Journal of Nutrition 2016

New Links between selenium and cancer prevention. HRB. December 2017

Clark LC et al: Effects of Selenium Supplementation for Cancer Prevention in Patients with Carcinoma of the Skin. JAMA: 1997.

Craig Weatherby. Mercury-Fighting Mineral in Fish Overlooked in Heated Debate. Vital Choice Wild Seafood and Organics 2006

DR-dokumentar: De ufødte børn 03-11-2014

https://www.dr.dk/nyheder/viden/miljoe/kviksoelv-ekspert-bifalder-nye-kostraad-til-boern-og-gravide

Kviksølvforgiftning - Wikipedia, den frie encyklopædi

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